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Quando Menas é Mais

Por Luis Marcelo Mendes em 05.03.2010 comente

Detalhe da instalação Erros nossos de cada dia (crédito: Divulgação)
Detalhe da instalação Erros nossos de cada dia  (crédito: Divulgação)

Menas. O próprio título da exposição já é em si uma provocação. Mesmo sabendo que menos é um advérbio, portanto, invariável, quantas vezes já não ouvimos a “concordância” para o gênero feminino por pessoas das mais diferentes classes e idades.

Menas está na fronteira entre tudo o que não vale e o vale-tudo. E essa provocação é a proposta dessa ocupação de 450 m2 do Museu da Língua Portuguesa a partir de 15 de março, com sete instalações para enumerar nossos erros linguísticos mais comuns, entender porque erramos e discutir a amplitude e a criatividade da língua. A exposição é produzida pela Tecnopop em parceria com a Automatica, com a projeto expográfico da Artificio.

ÓCULOS

O objetivo desta instalação é livrar os visitantes de seus juízos prévios sobre os erros da linguagem, preparando-os para tirar proveito das outras seções da exposição. Jogos óticos, mecanismos de movimento e outros truques capturam o olhar, provocam uma espécie de vertigem, quebrando antigas certezas e abrindo a mente para o que virá.


BIBIOTECA DE BABEL

Esta instalação encerra uma desordem buscada, objetivando retratar a língua como de fato ela é. Escritores e compositores se manifestam sobre a língua e sobre a vida, apresentando posições inesperadas, criativas, que desarranjam a visão tradicional sobre a língua portuguesa. Daqui o título: “Biblioteca”, que supõe a organização, as ideias no lugar, o já sabido, e “de Babel”, que é o avesso disso tudo, a desordem criativa, as ideias provocativas, o não sabido. Biblioteca de Babel é uma metáfora poderosa, que capta a língua portuguesa no que ela tem de estruturado, ordenado, previsível, convivendo com o desarticulado, o caótico, o imprevisível. As antíteses descrevem perfeitamente o que é uma língua natural, representando inesperadamente sua síntese. O português brasileiro exemplifica muito bem essa dupla face das línguas naturais.


ERROS NOSSOS DE CADA DIA

Reunimos nesta instalação 100 erros lexicais, semânticos, gramaticais e discursivos num grande painel 3 × 12m. Uma divertida seleção com os mais comuns, os mais frequentes e até aqueles que nós, de vez em quando, cometemos.

O visitante verá que por vezes é tênue a linha que separa o certo do errado. Os comentários que se seguem a cada erro mostram várias coisas: a motivação estrutural do erro, o fato de que o que se considera errado hoje já foi considerado certo anteriormente, a motivação fonética do erro, a ênfase exagerada, etc. Ou seja, por trás de cada erro há determinada utilização da língua, criativa aqui, analógica acolá, mas sempre inovadora.


NORMA, A CAMALEOA

É preciso saber gramática para falar e escrever bem? É preciso seguir as regras e o vocabulário certo? A língua é um organismo vivo? Língua é poder? Não tem certo e errado, tem o adequado pra cada momento? O importante é saber se comunicar?

Dentro da própria língua há tensões e conflitos de visões de quatro sistemas: a norma gramatical, a norma, lexical, a norma semântica e a norma discurssiva. No vídeo “Norma, a camaleoa”, a premiada atriz Alessandra Colassanti, filha dos escritores Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti, encarna as quatro normas da língua portuguesa ao mesmo tempo, apresentando-as e discutindo-as.

A instalação apresenta um encontro fictício das quatro no banheiro do museu que observamos por trás dos espelhos. Entre um retoque de maquiagem e uma ajeitada no cabelo elas discutem que ao operar com as regras em nosso dia a dia podemos selecionar formas aceitas pela sociedade, ou formas rejeitadas por ela. Cada sistema abriga tanto o certo quanto o errado.

Mas as normas são quatro ou são uma só? Elas são tudo isso ao mesmo tempo. Elas são quatro em uma, quando uma mesma expressão apresenta problemas oriundos dos quatro sistemas. Elas são uma em quatro, quando o erro proveio de um sistema só. De qualquer forma, não há dúvida que Norma é uma camaleoa.


JOGO DO CERTO E ERRADO

O visitante vai encontrar uma atividade que desafiará suas certezas. Entre elas a que dia a dia você vai encontrar um monte de situações em que algo parece estar certo (mas não está) e descobrir outras palavras ou expressões que você tem certeza de que são erros (e, na verdade, não são).

São 9 estações ligadas em rede que apresentam 15 perguntas. A cada questão correspondem três ou quatro alternativas. O visitante escolhe a que lhe pareça mais adequada. Imediatamente, o sistema calcula o percentual de visitantes que fizeram a mesma escolha. Na sequência, um comentário explica o fundamento das alternativas.


JANELAS ABERTAS

Depois deste mergulho no português brasileiro, está na hora de retornar aos amplos espaços sociais em que praticamos nossa língua.

Um corredor estreito e final da exposição, traz à tona índices de uma rua de comércio popular e do linguajar praticado nestas ruas convidando o público a voltar para a vida fora do Museu e perceber a língua de maneira mais generosa, apreciando sua criatividade e mutabilidade.

Para alcançarmos um resultado mais reflexivo, cinco intelectuais, artistas e pensadores falam sobre os eventos línguisticos e a língua das ruas, a criatividade. A seleção envolve criadores que levam essas questões no limite como Nuno Ramos (artista plástico e escritor. Autor, entre outros de “Ó”, “O Pão do Corvo”, “Cujo”), Paulo Lins (escritor e poeta, autor do livro “Cidade de Deus”), Suzana Salles (cantora e compositora) e Manuel da Costa Pinto.

A idéia é termos estas personalidades, que não são linguistas, mas que com certeza trazem novos ares à discussão, como porta-vozes qualificados das idéias exploradas pela exposição.


OS CURADORES

A exposição conta com dois curadores que sabem muito bem do que estão falando: Ataliba T. de Castilho e Eduardo Calbucci. A combinação entre o conhecimento e a capacidade de comunicação foi a dose certa para um conteúdo que diverte sem perder a consistência.

O professor Ataliba é uma das principais autoridades do Brasil quando o assunto é língua portuguesa. Atualmente aposentado, foi Professor Titular de Filologia e Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo até 2007. Na sua bagagem acadêmica constam 24 livros publicados e 60 publicações em revistas especializadas.

Já Eduardo Calbucci é Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela ECA-USP, Mestre e Doutor em Lingüística pela FFLCH-USP. É co-autor do material de Português (Gramática, Texto, Redação e Literatura) e Sociologia do Sistema Anglo de Ensino, professor do Anglo Vestibulares em São Paulo desde 1994 e membro do corpo editorial da Editora Anglo. Tem também vasta experiência como professor de Português no Ensino Médio. Publicou, em 1999, pela Ateliê Editorial, Saramago: um roteiro para os romances, obra que está em segunda edição. Seu novo livro, A enunciação em Machado de Assis, a ser publicado pela Nankin e pela Edusp, está em fase final de edição.

Para o professor Ataliba, a exposição é uma oportunidade de promover o encontro das pessoas cheias de certeza, que consideram sua a missão de ensinar o brasileiro a falar certo, com aqueles que acham uma perda de tempo preocupar-se com a correção linguística: “a Exposição Menas tomou outra direção: expor os visitantes a um conjunto de situações linguísticas, convidando-os a refletir sobre os dados, tirando suas próprias conclusões”.





Imagens
Instalação Norma, a camaleoa
(Divulgação)

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